A vacina de Brian

Recentemente, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou a aprovação de uma vacina para a Covid-19 apenas dois meses depois do início dos testes em humanos. Surpreende menos o fato de que a filha dele já teria sido imunizada, e mais a velocidade de todo o processo. A chamada Sputnik V não figurava na lista da Organização Mundial da Saúde (OMS) das que já tinham alcançado a fase três – e mais ampla – dos testes clínicos e nenhum estudo sobre sua eficácia foi publicado.

No momento em que boa parte do planeta deposita uma enorme expectativa em uma vacina, o anúncio de Putin, que à primeira vista parece reconfortante, me fez lembrar de ‘A vida de Brian’, comédia satírica lançada pelo grupo britânico Monty Python em 1979. No filme, uma série de mal-entendidos leva a multidão a acreditar que o protagonista é o salvador da humanidade. Por mais que não tenha tido a intenção de ser um messias, Brian é um blefe, seguido fiel, cega e perigosamente por uma horda disposta a entender os mínimos gestos como milagres.

Na ciência, porém, não há espaço para a fé. Ou não deveria. É fundamental que a Rússia prove – com o mais absoluto rigor científico – que a vacina recém-aprovada é Jesus, e não Brian, para manter o paralelo com o filme. Não bastam apenas os discursos do presidente e de autoridades sanitárias para comprovar o milagre do desenvolvimento da primeira vacina eficaz e segura para a Covid-19, sobretudo em um país que não tem a transparência como virtude e que usa, esconde ou distorce informações de acordo com interesses geopolíticos.

Ainda que nenhuma comprovação científica tenha sido fornecida, muita gente busca ver nesta vacina o lado bom da vida. É o caso do governo do Paraná, que firmou uma parceria com a Rússia para trabalhar no desenvolvimento da Sputnik V e pretende negociar a transferência de tecnologia para produzir e distribuir o composto no estado. É fundamental que seja uma esperança desconfiada, a ser ratificada pela análise dos dados à luz da ciência.

Não se trata de uma questão ideológica. Sem qualquer respaldo técnico da comunidade científica internacional, a vacina russa deve acabar crucificada. O momento exige extrema cautela, e nunca é demais lembrar que não se deve descuidar das medidas já comprovadamente eficazes para conter o avanço da doença. O fato de haver uma vacina no horizonte, seja a russa ou qualquer outra, não permite relaxar os cuidados. Qualquer ato precipitado poderá custar milhares – ou até milhões – de vidas. Uma vez mais, é preciso estar vigilante para que Pilatos não lave suas mãos.

Foto: David Appleby/divulgação

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