A morte, a boiada e a vingança da natureza

A morte está sempre à espreita da vida. Desde que nascemos, temos uma certeza: morreremos um dia, não importando o que aconteça entre o início e o fim. Nem todos nós lidamos bem com a ciência do destino inescapável. Uma pesquisa do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil de 2018 mostra que falar sobre a morte é um tabu para mais de 73% dos brasileiros. Quase metade deles não está pronta para lidar com a morte de outra pessoa e 30% têm muito medo de morrer, percentual semelhante ao daqueles que não sabem como ou com quem falar sobre o tema.

Nunca é fácil, e nunca será. Nenhuma perda é igual a outra. Cada morte é única porque traz consigo um contexto: a relação que se tinha com quem se foi, as circunstâncias do falecimento e o momento de vida de quem fica. São variáveis complexas demais para que haja uma fórmula pronta. Contudo, a inexistência de uma cartilha que possa ser seguida à risca com a garantia de que o luto será satisfatoriamente concluído não invalida qualquer tentativa de procurar ajuda, profissional ou não. Ninguém deve se considerar fraco por buscar apoio, tampouco se medir pelas réguas dos outros; dores não são comparáveis e não há uma escala de perdas.

“Mas por que, então, deveríamos ser úteis? E para quem? Quem é que dividiu o mundo em útil e inútil, e quem lhe deu o direito de fazê-lo? Desse modo, o cardo não teria o direito de viver, nem um rato que devora os grãos nos armazéns, nem sequer as abelhas ou os zangões, as ervas daninhas ou as rosas. Quem foi o dono da mente que se atreveu a tanta arrogância para julgar quem é melhor ou pior? Uma árvore enorme, torta e cheia de buracos sobreviveu por vários séculos sem ser derrubada, porque não se podia fazer nada com ela. Esse exemplo deveria animar pessoas como nós. Todos conhecem o benefício do útil, mas ninguém conhece o proveito do inútil.”


Olga Tokarczuk, in 'Sobre os ossos dos mortos'

Evidentemente, o fato de ser um assunto tabu reveste a morte de ainda mais mistérios, mas evitá-la só torna a questão ainda mais difícil. É o que tenho aprendido ao ouvir o Finitude, podcast apresentado pela jornalista Juliana Dantas que aborda tudo o que é finito – a vida, em particular – e que passa a ter episódios semanais a partir da atual temporada, depois de uma longa, completa e bem-sucedida maratona para trazer informações e suscitar reflexões importantes sobre a pandemia do novo coronavírus.

O Finitude se propõe a falar tanto de aspectos práticos quanto filosóficos. Foi com o podcast que descobri, por exemplo, a importância de manifestar e deixar registrados os desejos pós-morte. À primeira vista, parece fúnebre decidir ainda em vida o que queremos fazer com nossos corpos (se serão enterrados, cremados ou encaminhados para estudo e se nossos órgãos serão doados) e que rituais serão celebrados (se haverá velório ou alguma cerimônia religiosa), mas expressar estas últimas vontades pode orientar quem fica e aliviar o sofrimento em um momento de dor.

E quanta dor temos presenciado este ano! No início de agosto, o Brasil superou a triste marca de cem mil mortes provocadas pela Covid-19, muitas das quais poderiam ter sido evitadas se houvesse uma articulação séria entre as esferas municipais, estaduais e federal no enfrentamento da pandemia. Infelizmente, não foi o que se viu; e o resultado é um número escandaloso e inaceitável de vítimas. Diuturnamente, as maiores autoridades do país se preocuparam em minimizar a gravidade da doença, conclamando o povo a (pretensamente) salvar a economia, em vez da vida de seus compatriotas.

Na reunião ministerial do dia 22 de abril, tornada pública um mês depois, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, considerou justo aproveitar uma falsa distração da sociedade e da mídia – focadas na pandemia – para “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”. Ou seja, enquanto o Brasil buscava entender os efeitos do coronavírus, o ministro sugeria ao presidente medidas que supostamente removeriam entraves burocráticos aos investimentos e ao desenvolvimento sustentável, mas que – na prática – promoveriam um desmonte da política ambiental brasileira, que Salles, pelo cargo, deveria defender e fortalecer.

“- Uma vez tive duas cadelas que prestavam muita atenção para que tudo fosse dividido justamente – comida, carinho e privilégios. Os animais têm um senso de justiça muito bem desenvolvido. Lembro do olhar delas quando eu fazia algo errado, quando as reprovava injustamente ou não cumpria a palavra. Olhavam com uma dor tão grande, como se não conseguissem entender como eu podia ter violado a lei sagrada. Aprendia com elas uma justiça absolutamente básica e natural. – Silenciei por um momento, e depois acrescentei: – Nós temos a visão do mundo, mas os animais têm a percepção do mundo. Sabia disso?”


Olga Tokarczuk, in 'Sobre os ossos dos mortos'

O tamanho desapreço do ministro do Meio Ambiente pela natureza me voltou à mente ao terminar de ler ‘Sobre os ossos dos mortos‘, livro escrito pela polonesa Olga Tokarczuk em 2009 e lançado no ano passado no Brasil pela editora Todavia. No romance, a vencedora do Nobel de literatura em 2018 conta a história de Janina Dusheiko, uma professora de inglês aposentada que vive em uma região remota da Polônia. É neste ambiente inóspito, e muitas vezes hostil, que ela se empenha em sabotar armadilhas e impedir a caça de espécies silvestres. Um dia, um vizinho aparece morto. E logo outros corpos são encontrados, todos próximos a vestígios deixados por animais. A teoria de que se trata de uma vingança da natureza ganha força e Janina se torna, então, a figura aparentemente mais preparada para elucidar os crimes.

Além do direito dos animais, tratados com absoluta reverência pela protagonista, o romance também propõe discussões instigantes sobre temas como a loucura, a justiça (ou a falta dela) e a hipocrisia da religião. Ainda que sombrio na maior parte do tempo, um reflexo do lugar ermo que lhe serve de cenário, o livro traz um tom de fábula e inúmeras passagens profundamente filosóficas, que convidam o leitor a uma reflexão antes de prosseguir na leitura. É louvável que Olga Tokarczuk tenha conseguido escrever um livro tão macabro quanto doce, em que o desprezo pela humanidade e o respeito pela natureza estão perfeitamente dosados, e com um final surpreendente.

Imagem: Talita Hoffmann/Todavia/divulgação

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