‘O último cine drive-in’

Durante a pandemia do novo coronavírus, um tipo de cinema que muitos acreditavam já extinto voltou ao noticiário, ao imaginário dos espectadores e a muitas cidades. O conceito do drive-in é simples: basta estacionar o carro em uma vaga diante da tela e sintonizar o rádio em determinada frequência (ou, de forma mais moderna, o celular) para ver e ouvir o filme. Em tempos de isolamento, é a única forma possível de ir efetivamente ao cinema.

Diante do estranho momento em que vivemos, lembrei-me de ‘O último cine drive-in’, primeiro longa-metragem dirigido pelo cineasta brasileiro Iberê Carvalho, lançado em 2015, e que desde então figurava na minha lista de produções a assistir. Roteirizado pelo próprio Iberê e por Zé Pedro Gollo, o filme acompanha a volta de Marlombrando (Breno Nina) a Brasília, cidade onde cresceu e onde agora a mãe, Fátima (Rita Assemany), está internada com uma grave doença. Sem ter a quem recorrer, ele se vê obrigado a procurar o pai, Almeida (Othon Bastos), dono do último drive-in do país, ameaçado tanto pela falta de público quanto pela especulação imobiliária.

O tributo prestado ao cinema e ao seu poder de encantamento é óbvio, evidenciado pelas muitas referências que a direção de arte põe em cena, como cartazes de clássicos como ‘Cinema paradiso’ e ‘O poderoso chefão’. Mas, para além da homenagem metalinguística, o filme aborda a decadência e a finitude, tanto dos corpos físicos quanto das interações interpessoais e dos espaços. Como na relação entre pai e filho, pouco é dito e quase tudo é subentendido. A economia do roteiro abre espaço para que a compreensão se dê mais pelos silêncios e pelas ações do que pelas palavras.

Não significa dizer, com isso, que seja um filme de difícil leitura. Muito pelo contrário. A narrativa é simples a ponto de se tornar previsível. Desde o início, é possível deduzir onde a trama vai desaguar uma hora e quarenta minutos depois. A falta de surpresa, no entanto, não chega a ser um demérito, porque ‘O último cine drive-in’ parece mais interessado em observar as interações humanas e o modo como os personagens vão se moldando uns aos outros. E, para tal, se vale de um elenco bastante coeso.

Foto: divulgação

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