‘Pátria’

Um dos elementos constitutivos mais importantes para o ser humano é a identidade, que pode ser dividida em duas chaves: a individual, bastante ancorada em tradições e práticas familiares, e a nacional, embasada em uma consciência de nação que, desde a Revolução Industrial, transborda as fronteiras do aqui e agora a que estava circunscrita na pré-modernidade. Embora não sejam exatamente a mesma coisa, as duas identidades estão ligadas e precisam fazer sentido para o sujeito, isto é, serem capazes de manter um elemento identificador, ajudando a conectar passado e presente e a perpetuar a memória, as histórias e os símbolos individuais e nacionais.

A identidade é um dos temas centrais de ‘Pátria’, romance lançado pelo espanhol Fernando Aramburu em 2016 e publicado no Brasil em 2019 pela editora Intrínseca, com tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. As 512 páginas, divididas em capítulos bem curtos, percorrem três décadas da vida de duas famílias separadas justamente por um conflito identitário. Amigas muito próximas, Bittori e Miren se casaram e tiveram filhos mais ou menos na mesma época, mas acabaram separadas pelo Movimento de Libertação Nacional Basco, o ETA. Enquanto o marido de Bittori, um empresário bem-sucedido, é marcado para morrer pelo grupo, Miren vê o primogênito entrar para a luta armada. Quando Txato é assassinado, Bittori e os filhos deixam a vila natal, confirmando – fisicamente – o afastamento das famílias.

“Oito horas. Clima temperado, outubro benigno. De repente lhe veio à mente o que Nerea lhe dissera de manhã. Que trocasse o capacho? Não, que não devemos abrir mão da alegria. Ah, uma besteira que se diz aos mais velhos para melhorar seu ânimo. Bittori não sentia a menor necessidade em aceitar que fazia uma tarde esplêndida. Mas, para dar pulinhos de alegria, era necessário outro tipo de estímulo. Por exemplo? Ai, sei lá. Que inventassem uma máquina de ressuscitar os mortos e me devolvessem meu marido. Então se questionou se depois de tantos anos não deveria pensar em esquecer. Esquecer? O que é isso?”

Fernando Aramburu, in ‘Pátria’

Em maio de 2018, quando o ETA anuncia o fim da luta armada, Bittori resolve buscar respostas para perguntas que há muito martelam sua mente. O que aconteceu no dia em que Txato foi morto? Teria o filho mais velho de Miren, Joxe Mari, participado ativamente do crime? Apesar das constantes e preocupadas súplicas da própria família, Bittori decide enfrentar a ainda latente hostilidade dos moradores do lugarejo em relação a ela e à paz que a sua presença poderia perturbar. Descobrir as circunstâncias da morte do marido é, para Bittori, a única forma de cicatrizar de vez esta ferida ainda aberta do passado e completar o ritual do luto.

À primeira vista, pode parecer que há uma divisão entre mocinhos e vilões, sobretudo pelo fato de a trama ter um assassinato como elemento desencadeador. Seria simplista demais. Mas, felizmente, Aramburu é bastante habilidoso ao não santificar ou demonizar nenhum de seus personagens. O autor rompe com a linearidade da narrativa e, ao avançar e retroceder no tempo de acordo com a necessidade da história que conta, vai colocando as peças de um complexo quebra-cabeças que revela como a identidade nacional – no caso, basca – forja e é também forjada pelos sujeitos que a reconhecem como sua. ‘Pátria’ relembra ainda a importância da conciliação para apaziguar uma comunidade marcada pela violência política.

Foto de capa: Filiep Colpaert/Getty Images
Foto do autor: Ivan Giménez/Tusquets Editores

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