A história que não aprendemos na escola

O que eu sei sobre a história do Brasil? Não faz tanto tempo assim que terminei a escola. Ou é nisso que gostaria de acreditar. Deixei os bancos escolares há quase quinze anos, o que não é nada do ponto de vista histórico, embora represente metade da minha vida. Essa distância no tempo me permite perceber o que de fato ficou guardado na memória, ou seja, o que realmente foi aprendido, e não apenas decorado para uma prova.

A pergunta que abre este texto veio a partir da leitura do primeiro volume da trilogia ‘Escravidão’, que o jornalista Laurentino Gomes começou a publicar em 2019 (os outros dois estão previstos para 2020 e 2021) pela editora Globo Livros. O escritor replica a técnica já empregada em ‘1808’, ‘1822’ e ‘1889’: transformar um farto material de pesquisa em um livro palatável ao grande público, e não apenas uma obra acadêmica voltada para historiadores e pesquisadores.

Agora, Laurentino se dedica a um dos pilares fundamentais da história brasileira, que marcou profundamente e ajudou a definir nossa identidade nacional. Ao longo de suas 480 páginas, o primeiro volume abrange um período de 250 anos, indo do primeiro leilão de africanos escravizados registrado em Portugal, em agosto de 1444, até a morte de Zumbi dos Palmares, no dia 20 de novembro de 1695. Estão explicadas ali as raízes da escravidão no Brasil, que foi o maior território escravocrata do Ocidente, tendo recebido 40% dos 12,5 milhões de africanos embarcados como cativos para a América durante três séculos e meio.

Tendo estudando em um colégio de bairro de classe média do Rio de Janeiro, muitos dos detalhes trazidos pelo livro me escapavam. Apesar de a escola se vender como tendo uma filosofia mais humanista, aprendi sob a cartilha dos vencedores, sempre justificando as razões políticas, econômicas e morais que levaram à escravidão e segundo a qual qualquer reflexão crítica a respeito deste tenebroso período histórico seria, no mínimo, anacrônica.

Suponho fortemente não ter estado sozinho. O ensino da história brasileira é marcado por reiterados apagamentos propositais de tudo aquilo que não é branco. Nesta história protagonizada pelo europeu colonizador, índios e africanos são meros coadjuvantes, de quem se suprime as identidades e a quem não se atribui qualquer valor. Neste sentido, não é mero acaso que o Brasil tenha sido “descoberto” por Pedro Álvares Cabral em 1500 e que tenha sido a princesa Isabel quem “aboliu” a escravidão.

Apesar das brutais ameaças e perseguições que sofreram ao longo de séculos, índios e negros resistiram e seguem na luta para contar suas versões do que ocorreu no Brasil desde os tempos em que éramos colônia de Portugal. Felizmente, eles parecem encontrar cada vez mais espaço para se fazer ouvir e ouvidos dispostos a escutá-los. Desde pequeno, sempre gostei das aulas de história e acredito ter aprendido o suficiente do ponto de vista de quem sempre foi o poder hegemônico. Agora, me dedico à história que não aprendemos na escola. E, pelo bem das futuras gerações, torço para que ela possa estar lá também.

Imagem: ‘Zumbi’ (c. 1927), de Antônio Parreiras (1860-1937)

Aves e passarinhos

Uns haicais me vieram voando…

Andorinha
Sozinha, ela
não faz verão; quando tem
dupla, faz ninho.

Câmera escondida
De onde me vê
o bem-te-vi? Porque eu
nunca o vejo.

Le canard
O pato francês,
sempre questionador,
pergunta: quoi? quoi?

Imagem: ‘Duck’, de Rebecca Jelbert

‘Com amor, Van Gogh’

Inspirados pelas obras e pela técnica de Vincent Van Gogh, mais de cem artistas trabalharam durante seis anos em uma animação. Lançada em 2017, ‘Com amor, Van Gogh’ narra a jornada de Armand Roulin (Douglas Booth) para cumprir um pedido do pai, o carteiro Joseph Roulin (Chris O’Dowd), que era amigo do pintor: entregar a Theo Van Gogh (Cezary Lukaszewicz) uma das últimas cartas escritas pelo irmão artista. Na empreitada, Armand acaba descobrindo detalhes sobre a vida e a morte de Vincent, cujo talento só foi reconhecido postumamente.

O esmero da produção – coproduzida por Polônia e Reino Unido e dirigida por Dorota Kobiela e Hugh Welchman – salta aos olhos já nos créditos de abertura. Trata-se do primeiro longa-metragem da história do cinema todo elaborado com pinturas feitas a mão. Para recriar o estilo inconfundível do artista holandês, a equipe de pintores se valeu das obras de Van Gogh para criar os cenários e de ilustrações feitas para reproduzir as cenas filmadas com atores. O resultado, tanto das passagens coloridas quanto dos flashbacks em preto e branco, é simplesmente arrebatador.

Contudo, de nada adiantaria tanta beleza em um conteúdo vazio, que tampouco faria jus ao trabalho de Van Gogh, um artista que começou a pintar tardiamente para os padrões da época (aos 28 anos) e cujo temperamento arredio o levou a ser considerado louco, levando-o a uma morte prematura, por suicídio, aos 37 anos, em 1890. Embora sua carreira não tenha durado nem dez anos, foi bastante produtiva: cerca de 800 obras.

Obviamente, uma biografia tão singular quanto essa já deu origem a inúmeros filmes, como ‘Sede de viver’, dirigida por Vincent Minnelli e protagonizada por Kirk Douglas nos anos 1950, e o recente (e posterior ao desenho) ‘No portal da eternidade’, comandada por Julian Schnabel e estrelada por Willem Dafoe em 2018. Ambos renderam aos atores indicações ao Oscar.

A animação, porém, desloca levemente o protagonismo para Armand Roulin, incumbido de entregar a correspondência à família do pintor. A cada novo encontro com alguém que conviveu com o artista em Auvers-sur-Oise, vilarejo que fica uma hora ao norte de Paris, o jovem vai montando o quebra-cabeça da personalidade de Van Gogh e acaba questionando se ele realmente teria cometido suicídio com um tiro na barriga (uma forma bastante incomum de tirar a própria vida) ou teria sido assassinado.

A suspeição levantada pelo roteiro, escrito pela dupla de diretores em parceria com Jacek Dehnel, ajuda a movimentar a trama, mas o espectador que estiver à espera de uma conclusão vai acabar frustrado ao fim de uma hora e meia de projeção. ‘Loving Vincent’, no título original, é uma animação que está menos preocupada em reescrever a biografia de Vincent Van Gogh e mais interessada em celebrar, com uma estética impecável, a genialidade de um dos maiores e mais conhecidos pintores da história da arte.

Imagem: divulgação

Mais três haicais [3]

Mais uma série de haicais, agora sem um tema em comum.

Horário comercial
O despertador,
tocando antes das 5h,
desperta a dor.

Mudo
Até o ar faz
barulho quando quero
manter silêncio.

Celulose
Que madeira é
melhor para se fazer
papel de trouxa?

Imagem: ‘O despertador’ (1914), de Diego Rivera (1886-1957)

‘O último cine drive-in’

Durante a pandemia do novo coronavírus, um tipo de cinema que muitos acreditavam já extinto voltou ao noticiário, ao imaginário dos espectadores e a muitas cidades. O conceito do drive-in é simples: basta estacionar o carro em uma vaga diante da tela e sintonizar o rádio em determinada frequência (ou, de forma mais moderna, o celular) para ver e ouvir o filme. Em tempos de isolamento, é a única forma possível de ir efetivamente ao cinema.

Diante do estranho momento em que vivemos, lembrei-me de ‘O último cine drive-in’, primeiro longa-metragem dirigido pelo cineasta brasileiro Iberê Carvalho, lançado em 2015, e que desde então figurava na minha lista de produções a assistir. Roteirizado pelo próprio Iberê e por Zé Pedro Gollo, o filme acompanha a volta de Marlombrando (Breno Nina) a Brasília, cidade onde cresceu e onde agora a mãe, Fátima (Rita Assemany), está internada com uma grave doença. Sem ter a quem recorrer, ele se vê obrigado a procurar o pai, Almeida (Othon Bastos), dono do último drive-in do país, ameaçado tanto pela falta de público quanto pela especulação imobiliária.

O tributo prestado ao cinema e ao seu poder de encantamento é óbvio, evidenciado pelas muitas referências que a direção de arte põe em cena, como cartazes de clássicos como ‘Cinema paradiso’ e ‘O poderoso chefão’. Mas, para além da homenagem metalinguística, o filme aborda a decadência e a finitude, tanto dos corpos físicos quanto das interações interpessoais e dos espaços. Como na relação entre pai e filho, pouco é dito e quase tudo é subentendido. A economia do roteiro abre espaço para que a compreensão se dê mais pelos silêncios e pelas ações do que pelas palavras.

Não significa dizer, com isso, que seja um filme de difícil leitura. Muito pelo contrário. A narrativa é simples a ponto de se tornar previsível. Desde o início, é possível deduzir onde a trama vai desaguar uma hora e quarenta minutos depois. A falta de surpresa, no entanto, não chega a ser um demérito, porque ‘O último cine drive-in’ parece mais interessado em observar as interações humanas e o modo como os personagens vão se moldando uns aos outros. E, para tal, se vale de um elenco bastante coeso.

Foto: divulgação