‘Destacamento Blood’

Em meio aos protestos pela morte de George Floyd, segurança afro-americano que foi sufocado por um policial branco por supostamente usar uma nota falsa para fazer compras em um mercado de Minneapolis, nos Estados Unidos, uma das mais poderosas vozes na luta pela igualdade racial se levanta novamente. Chegou ao catálogo da Netflix o filme ‘Destacamento Blood’, no qual o cineasta Spike Lee reflete sobre a participação dos negros na guerra do Vietnã, que representavam 32% das tropas americanas, enquanto eram 11% da população.

O título original – ‘Da 5 Bloods’ – faz referência a um grupo de cinco combates que lutaram juntos no país asiático. Décadas mais tarde, quatro deles voltam ao Vietnã para resgatar não apenas o corpo do quinto soldado, morto durante o conflito, e devolvê-lo à família, mas também para recuperar um baú cheio de barras de ouro que eles enterraram na selva. A viagem, claro, vai despertar velhos traumas, pois, como diz o guia vietnamita dos veteranos, uma guerra nunca acaba, seja na mente de quem a viveu ou na realidade.

Como ficção, ‘Destacamento Blood’ é absolutamente envolvente. Assinado por Spike Lee ao lado de Danny Bilson, Paul De Meo e Kevin Willmott, o roteiro cria uma escalada de tensão que nos deixa absolutamente concentrados na ação. Em paralelo, vai acrescentando, de forma bastante orgânica, camadas de drama nas histórias dos protagonistas, de modo a torná-los tridimensionais e a fazer com que suas motivações sejam compreendidas. E o elenco de veteranos – formado por Delroy Lindo, Clark Peters, Norm Lewis e Isiah Whitlock Jr – entrega interpretações magistrais, aproveitando uma infelizmente ainda rara oportunidade dada a atores negros e experientes de serem protagonistas no cinema.

Obviamente, o cineasta ultrapassa a ficção. Enquanto ardia a guerra no Vietnã, a luta dos negros por direitos civis nos Estados Unidos pegava fogo, tendo no assassinato de Martin Luther King Jr, no dia 4 de abril de 1968, um dos seus momentos mais emblemáticos. Ao longo de pouco mais de duas horas e meia, o longa-metragem recupera fragmentos documentais para que a voz de importantes figuras negras, como o próprio Luther King e Muhammad Ali, volte a ser ouvida.

Concebido e rodado bem antes que os manifestantes voltassem às ruas para cobrar os direitos dos negros, o filme reafirma a capacidade de Spike Lee em analisar a sociedade americana e perceber que os Estados Unidos ainda estão longe de atingir o sonho de que falava Martin Luther King Jr. Mais do que um excelente produto de entretenimento, ‘Destacamento Blood’ é o manifesto de um cineasta que ao longo de toda sua carreira nos lembra do que deveria ser óbvio: vidas negras importam.

Foto: divulgação

Pequenas orações

Uma nova série de haicais. Amém.

Ladainha
Queixe-se ao
bispo, diz padre ao
ouvir lamúrias.

Silêncio divino
Grande discussão,
o padre mudo para
não gastar latim.

Substituição
Igreja troca
padre que não sabe da
missa um terço.

Imagem: ‘Interior de uma catedral gótica’ (1612), de Paul Vredeman de Vries (1567-1617)

Um desabafo

Ontem, fez um lindo dia no Rio. Apesar de o inverno bater à porta, fazia sol e calor, o céu completamente azul e sem nuvens. Um convite para ir à praia. E muita gente foi, ignorando solenemente a proibição das autoridades políticas e de saúde, que ainda recomendam restringir a circulação por causa da pandemia do novo coronavírus. Nem os especialistas sabem se já chegamos ao pico da doença, porque temos um baixíssimo número de testes, mas a quase unanimidade deles afirma que – por enquanto – não é hora de flexibilizar as medidas de distanciamento social. No entanto, muitas cidades vêm relaxando as regras. É o caso do Rio, que liberou, por exemplo, a frequentação de shoppings.

Mas este não é um texto sobre a flexibilização da quarentena. É um desabafo. Eu também quis ir à praia ontem, aproveitar o tempo bom e o dia agradável, o calor que não era tão escaldante. Mas eu fiquei em casa. Pela minha saúde, pela saúde das pessoas que eu amo e pela saúde de pessoas que eu nem conheço, que podem até ter ido à praia ontem. Ao longo de todo esse período de quarentena, tenho ficado em casa o máximo que posso. Saio apenas para trabalhar (o jornalismo é atividade essencial), para ir ao mercado ou à farmácia, sempre seguindo as recomendações de higiene (máscara e álcool em gel), evitando aglomerações e apenas pelo tempo necessário. Tenho feito banho de sol na janela e exercícios físicos em casa, apesar de não estar proibido caminhar na rua, porque sei que reduzir a quantidade de pessoas circulando é fundamental para o tal achatamento da curva.

Quem estava ontem na praia também sabe disso, não é possível que não, depois de tantos meses e tantas notícias sobre o que é preciso fazer neste momento. Quem foi à praia ontem deliberadamente se achou no direito de infringir a lei e ignorar a gravidade da doença, acreditou ser mais esperto que todos aqueles que, como eu, ficaram em casa cumprindo o isolamento. Confesso que, quando vi as imagens das areias cheias, fiquei irritado por aquela gente estar me fazendo de bobo, aproveitando o dia lindo lá fora e eu estar aqui, me contentando em ver o sol e o céu azul pela janela.

Refletindo melhor sobre o certo a se fazer neste momento, a raiva passou, ainda que a decepção e a tristeza pela falta de empatia permaneçam. Podem me chamar de trouxa, de babaca e até de otário. Só não podem me acusar de ser também responsável pelo número de mortes que não para de subir. Tenho a consciência tranquila para deitar a cabeça no travesseiro à noite e dormir em paz, sabendo que eu fiz a minha parte, eu fiquei em casa. E continuarei fazendo. Por mim. Pelos meus. E também pelos outros.

Foto: Gabriel de Paiva/Agência O Globo

Especiarias poéticas

Mais uma série de haicais, agora bem temperada.

Novo regime
Na República,
a pimenta do reino
foi abolida.

Condimentado
O vendedor de
especiarias tinha um
forte temperamento.

Ardência
Não faz biquinho
porque o chef só usou
dedo de moça.

Vidraçaria
Moço, o vidro
temperado se faz com
sal e pimenta?

A vida é um saleiro
Homem é como
sal: ou é refinado
ou então, grosso.

Foto: Andrii Gorulko