‘A vida e a história de madam C.J. Walker’

Octavia Spencer é uma das melhores e mais versáteis atrizes em atividade. Talvez você não ligue o nome à pessoa, mas certamente já a viu nas telas, seja em blockbusters como ‘Convergente’ (da trilogia ‘Divergente’) ou ‘A cabana’, seja em filmes artisticamente mais interessantes como ‘Histórias cruzadas’, ‘Estrelas além do tempo’ ou ‘A forma da água’. Por estes três últimos, aliás, ela foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, tendo vencido em 2012 pelo papel da empregada doméstica que se recusava a baixar a cabeça para os desmandos dos patrões.

Como as três indicações ao Oscar de melhor atriz coadjuvante evidenciam, faltava a Octavia um papel como protagonista. O cinema continua devendo, mas a oportunidade veio através da minissérie ‘A vida e a história de madam C.J. Walker’, produção da Netflix que conta a história de Sarah Breedlove, uma empreendedora da indústria da beleza direcionada para o público afro-americano que se tornou a primeira mulher dos Estados Unidos a se tornar milionária tendo partido do zero.

A trajetória de Sarah é realmente interessante, com acidentes de percurso e dramas familiares que costumam render bons roteiros. A minissérie tem como base a biografia escrita pela tataraneta da empresária, A’Lelia Bundles, e engloba toda a carreira, digamos assim, de madam C.J. Walker, da tentativa de vender os produtos criados por Addie (Carmen Ejogo) até a criação de sua própria empresa. Mas quatro episódios de cerca de 45 minutos são insuficientes para retratar uma vida profissional e pessoal fartamente recheada de percalços, transformando tudo em um grande e pouco denso resumo. Com tempo tão enxuto, melhor seria eliminar tramas paralelas e manter o foco no que era mais caro à personagem: o sucesso.

Ainda que o resultado seja correto, o que é insuficiente em uma época em que as produções audiovisuais para o streaming têm ganhado cada vez mais complexidade e qualidade, ‘A vida e a história de madam C.J. Walker’ tem como mérito reunir profissionais negros e mulheres em departamentos técnicos (direção de fotografia e edição), no roteiro e cargos de comando (produção e direção), além de permitir o protagonismo deles no elenco. Em tempos em que o racismo ainda se faz presente e a indústria do audiovisual continua dominada por homens brancos, é um feito e tanto. Que uma produção como esta sirva de exemplo e seja o ponto de virada para que mais mulheres e homens negros possam contar suas histórias, mostrar seus pontos de vista e ocupar espaço não só nas plataformas de streaming, mas também no cinema. 

Foto: Amanda Matlovich/divulgação

Dia santo

Tento escrever um haicai todo santo dia. Às vezes, funciona.

Contrariedade
Fica o dito
pelo não dito. Será
o Benedito?

Com açúcar, sem afeto
Pegue doce de
Cosme e Damião; não
enche o saco.

Casamenteiro
Que mal eu fiz a
Santo Antônio para
vir este traste?

Na porta do céu
São Pedro, chego
já. Toco campainha ou
bato à porta?

Revelação
Foi na fogueira
de São João que você
queimou meu filme?

Imagem: ‘Santos em procissão’, de Luc-Olivier Merson (1846-1920)

Infusão de versos

Está posta a mesa com pequenos poemas que podem ser acompanhados com leite ou limão.

Indigesta
Erva daninha,
que dia você vai me
dar colher de chá?

Espera
Quanto de água
se ferve para fazer
chá de cadeira?

English tea
Cinco da tarde,
o foragido tomou
chá de sumiço.

Imagem: ‘Alice no país das maravilhas’ (1951), de Walt Disney

Na cozinha

Uma nova série de haicais bem temperados.

Faca afiada
A cozinheira
brigou para pôr tudo
em pratos limpos.

Indecisa
A confeiteira
não se decide; sempre
fazendo doce.

Detergente
Tem que pôr sabão
quando for cozinhar em
banho-maria?

Imagem: ‘Natureza morta-viva’ (1956), de Salvador Dalí

‘Perdi meu corpo’

Quem disse que animação tem que ser feita para o público infantil e que adultos não podem gostar? Há muito tempo, a ideia de que o gênero era dedicado exclusivamente às crianças já foi superada. É claro que a grande maioria é voltada aos espectadores mais novos, mas os mais velhos têm sempre de ser considerados. Afinal, são eles que levam os pequenos aos cinemas. E também querem – e merecem – se divertir. Por isso, as produções trazem diversas camadas de significados, a serem compreendidas segundo a faixa etária.

Mas pode uma animação ser feita para adultos? Óbvio! E elas não precisam se limitar a nenhum subgênero, como super-heróis ou erotismo. Prova disso é ‘Perdi meu corpo’, fantasia dramática francesa dirigida por Jérémy Clapin que estreou em 2019, foi indicada ao Oscar de melhor animação e está disponível no catálogo da Netflix. O filme conta a história de uma mão decepada que parte em busca do restante do corpo.

A sinopse parece um tanto macabra, mas o roteiro escrito por Clapin em parceria com Guillaume Laurant (autor do livro ‘Happy hand’, no qual a obra é inspirada, e do já clássico ‘O fabuloso destino de Amélie Poulain’) é mais melancólico do que sombrio. São 81 minutos de uma produção esteticamente caprichada que se divide em duas temporalidades: o presente, representada pela jornada da mão solitária, e o passado, que nos conta a quem ela pertence.

Quando criança, Naoufel sonhava ser pianista, por influência dos pais musicistas, e astronauta. A realidade, porém, se impôs. Um dia, na volta de um concerto, já tarde da noite, a família sofreu um acidente de carro e Naoufel ficou órfão. Ele passa a viver com um tio e um primo, em um ambiente sem qualquer afeto, e – anos depois – se torna entregador de pizza. Em uma de suas entregas, acaba se apaixonando pela bibliotecária Gabrielle e faz de tudo para conquistá-la.

Além de tratarem da mesma pessoa, embora a mão possa ser considerada uma personagem independente, as duas histórias se complementam na busca por pertencimento. Enquanto a mão deseja voltar a fazer parte do corpo, Naoufel procura em Gabrielle o afeto que lhe foi subitamente tirado pela tragédia familiar. Ainda que soe triste, ‘Perdi meu corpo’ oferece uma reflexão sobre a importância de se sentir completo e de encontrar o seu lugar no mundo.

Imagem: divulgação