Três haicais

Sempre me encantaram os haicais. Quase parecem feitos de improviso, mas são versos bem elaborados em toda sua concisão e simplicidade. Alguns me vieram à noite, enquanto tentava dormir em tempos tão difíceis. Anotei-os no celular, retrabalhei-os há pouco e agora compartilho. 

Coração de ouro
Sempre que me vê
o ourives pergunta:
tá tudo joia?

Ouvido seletivo
Qual é a lata
onde a gente joga
conversa fora?

Amor estranho
Eu amo como
o cão coçando sarna:
alivia e fere.

Imagem: ‘La femme aux bijoux’ (1968), de Joan Miró

Uma coisa de cada vez

Recentemente, em seu Mundo Hipatético, Amanda contou como a quarentena está transformando sua vida. Como estamos todos no mesmo barco (mas, espera-se, cada um na sua casa), o relato é parecido com o de familiares, amigos e colegas de trabalho. Alguns estão com mais dificuldade para pegar no sono ou engordando. Há quem relate ter mais ou menos disposição para fazer exercícios físicos, tempo para aprender algo novo ou para ler aquele livro que há muito andava na fila ou por as séries em dia.

Cada pessoa sente e passa a quarentena de um jeito, a depender da personalidade, do estilo de vida, da condição financeira e do preparo psicológico. Mas enfrentar esse momento de tanta incerteza não é fácil para ninguém. Enfim, nos demos conta de que o futuro é mesmo imprevisível, por mais que tentemos prevê-lo ou planejá-lo. Claro que é importante criar raízes fortes para resistir às intempéries que possivelmente virão. No entanto, temos sempre que nos lembrar de que não controlamos tudo.

Se o futuro está no campo das possibilidades, o presente é mais palpável. E, neste ponto, a quarentena nos tem feito repensar o agora. Com o leque de ações bem mais restrito, nos confrontamos com atividades que fazíamos de modo quase automático ou que delegávamos a alguém. Para muitos, lidar com a limpeza da casa, a lavagem das roupas e o preparo das refeições nem passava pela cabeça. Somam-se à lista o trabalho, a educação dos filhos e os cuidados com os mais velhos.

Diante de uma crise em que a prioridade é a saúde (e que ninguém diga o contrário), precisamos reclassificar o que é urgente e o que é importante; o que não pode ser postergado, o que vai ficar para depois e o que nem será feito. Para mim, foi curioso perceber como algumas coisas que eu achava que eram urgentes passaram à categoria de desnecessárias. E outras, que eram constantemente adiadas, subiram de patamar.

Também me dei conta de como algumas tarefas eram cumpridas de maneira rápida e displicente. Fazer as refeições, por exemplo, era quase que apenas suprir uma necessidade metabólica, com a atenção dividida entre ver as mensagens acumuladas no celular, ouvir podcasts ou assistir ao jornal na televisão. Agora, me permito aproveitar o momento, saboreando cada garfada ou gole.

Parece uma mudança boba, mas não é. Percebi o quanto os resultados não eram satisfatórios justamente porque faltou foco. Já me esqueci de um ingrediente porque prestava atenção ao que ouvia no podcast. Ou o contrário: perdi uma informação relevante porque me concentrava na receita. Também já tive que retroceder na leitura de um livro porque, a cada parágrafo, parava para responder a mensagens no celular.

São exemplos banais, mas que me alertaram para a importância de ter um foco. Vale para atividades da casa, mas também para o trabalho. Esqueça a balela do funcionário multitarefa, capaz de fazer tudo ao mesmo tempo e com igual eficiência. Uma atividade sempre vai ser a principal e as outras, secundárias. E é possível até que nem a principal seja cumprida satisfatoriamente, já que a atenção está dividida. Então, por que não fazer uma coisa de cada vez? Os resultados certamente serão melhores.

Apesar de todos os dias terem 24 horas, uns parecem correr mais depressa que outros; e há grandes chances de que voltem a passar voando quando a quarentena acabar. Mas espero levar dela ao menos dois aprendizados. O primeiro, que nem tudo que é importante é urgente. O segundo, que tudo tem seu tempo. Aproveite.

Arte: Sean David Williams

‘The english game’

Sempre tive uma relação estranha com o futebol, um tanto diferente da maioria dos brasileiros, para quem o esporte é uma verdadeira paixão. Na infância, jogava com os amigos do prédio e cheguei até a fazer escolinha. Obviamente, era zagueiro, cumprindo a inevitável sina de quem é mais alto e bem menos habilidoso do que os colegas. Gostava também de jogar futebol no videogame, onde era igualmente perna de pau. Assistir aos jogos na televisão nunca me atraiu, talvez pela possibilidade de acabar em um frustrante zero a zero. Raramente assisto às partidas, mesmo da seleção. A única exceção ocorre a cada quatro anos. Durante a Copa do Mundo, parece baixar um espírito futebolístico que me faz querer acompanhar todos os jogos, até mesmo um pouco atrativo Irã e Marrocos.

Por causa dessa afinidade vacilante, passei batido por ‘The english game’, disponível no catálogo da Netflix desde março. Baseada em fatos reais, a minissérie inglesa dirigida por Tim Fywell e Birgitte Staermose retrata as origens do futebol e como o jogo – até então praticado e dominado pela elite burguesa – conquistou a classe operária e se tornou cada vez mais popular. Ouvindo a um podcast, fui convencido a dar uma chance à série, que tem como produtor executivo e principal roteirista Julian Fellowes, criador de ‘Downton Abbey’ e vencedor do Oscar de melhor roteiro original por ‘Assassinato em Gosford Park’ (2001).

Há, claro, várias cenas que retratam partidas de futebol, mas o esporte é apenas o pano de fundo para mostrar os conflitos de classe na Inglaterra do fim do século XIX. Ao contratar os jogadores operários Fergus Suter (Kevin Guthrie) e Jimmy Love (James Harkness), ambos de Glasgow, para jogar no time local, o dono da usina de algodão de Darwen dá início, sem saber, à profissionalização do futebol, até então um jogo de cavalheiros amador. O fato de ambos receberem salário contrariava as regras da associação que organizava o campeonato nacional.

Os contrastes sociais são evidentes. Os jogadores dos times operários do norte do país cumpriam uma rotina fabril exaustiva, em meio a greves e cortes de salários, e se desdobravam para treinar e jogar, tentando levar um pouco de alegria ao povo. Enquanto isso, os ricos times do sul eram formados por cavalheiros abastados, cujos trabalhos eram bem menos cansativos e com todas as facilidades para treinar e manter uma boa alimentação. Um exemplo é Arthur Kinnaird (Edward Holcroft), herdeiro de um banco, capitão e melhor jogador do Old Etonians, equipe formada por ex-alunos do Eton College. Em comum, estas duas realidades tão distintas têm apenas o amor pelo futebol; mas a forma como ele se expressa também as põe em rota de colisão.

São apenas seis capítulos de cerca de uma hora cada. Se, por um lado, facilita a maratona, a curta duração faz com que algumas subtramas se percam ou sejam resolvidas de maneira muito rápida, mas nada que prejudique a narrativa e a capacidade de compreender as motivações dos personagens principais. Além de uma boa história, a minissérie tem uma reconstituição de época caprichada (méritos da direção de arte de Richard Downes e dos figurinos de Pam Downe), uma interessante trilha sonora que simula o repetitivo movimento de máquinas fabris para criar tensão (a cargo de Harry Escott) e um elenco que, apesar de pouco conhecido, é bastante convincente. ‘The english game’ não é nenhum gol de placa, mas tem méritos suficientes para driblar até a resistência de quem não é fã de futebol.

Foto: Oliver Upton/divulgação

‘Special’

Procurando uma série para assistir despretensiosamente depois do almoço, esbarrei com ‘Special’ no catálogo da Netflix. Como eram apenas oito episódios de cerca de quinze minutos cada, parecia o escape perfeito para tempos tão duros de pandemia. Classificada pela própria plataforma como espirituosa e irreverente, a série conta a história de Ryan Hayes, um jovem gay com paralisia cerebral moderada que busca tomar as rédeas da própria vida sem ligar muito para a imagem que os outros têm dele.

A produção americana é baseada no livro autobiográfico ‘I’m special: and other lies we tell ourselves’, lançado em 2015 por Ryan O’Connell, que – além de roteirista – é também o produtor-executivo e o protagonista. Isso tudo confere ainda mais verdade à série, que não evita temas sensíveis como a relação de dependência com a mãe, Karen (Jessica Hecht, em atuação comovente), e a vivência da sexualidade.

Mas quem disse que é preciso se levar a sério para abordar temáticas tão importantes? ‘Special’ tem o mérito de tratar tudo de forma leve, sem medo de ser piegas. É impressionante como o roteiro consegue passear entre a comédia e o drama em episódios tão curtos. Um dos truques para a concisão funcionar é agregar personagens secundários facilmente identificáveis, como a amiga gordinha que usa o humor para autoafirmação, a chefe megera e o gay descolado. Não se preocupe, o elenco bem escalado nos faz perdoar rapidamente o apelo aos estereótipos.

No cômputo geral, a série – dirigida por Anna Dokoza – é uma bem-vinda surpresa. Com domínio completo do personagem (ou seria da própria história?), Ryan O’Connell brilha em cena e faz de ‘Special’ um excelente entretenimento.

Foto: Beth Dubber/divulgação

Diário da quarentena: Loco Abreu

Ouvi passos no corredor e a chave girando na fechadura. Depois de nem sei quantos dias, João finalmente voltava para casa. Pulei da cama e, antes mesmo que ele girasse a maçaneta, já estava sobre o braço do sofá. Um cheiro diferente invadiu a sala. Devagarinho, um jovem colocou a cabeça pelo vão criado entre a porta e o batente. Quando me viu, arregalou os olhos em pânico. Aquele não era o João que morava comigo. Era o outro João, o parvo.

Desci do sofá e fui à porta. O cheiro de medo foi ficando mais forte. Quando finalmente entrou, vi que estava sozinho. Apesar da máscara que cobria metade do rosto, a expressão de pavor era visível. Pensei em fazer troça da situação, mas o cheiro já me causava náusea e preferi voltar para o quarto.

Não demorou para que viesse atrás. Continuei deitado, acompanhando seus passos com os olhos. Sua voz abafada me pediu calma, ainda que fosse ele quem estivesse nervoso. Embora o sol iluminasse o cômodo, acendeu a luz. E, praticamente se arrastando pela parede, caminhou até o armário. Abriu as portas uma a uma, sem tirar os olhos de mim. Quando encontrou o que procurava, deu um leve sorriso que me desconcertou.

O parvo tinha achado a maldita caixa. O próximo passo, claro, era me querer lá dentro. É sempre assim: eu entro, fecham a portinhola e me levam para o veterinário, um sujeito estranho de jaleco branco com instrumentos de tortura em mãos, que me apalpa o corpo todo, me espeta o cangote e me toma a temperatura enquanto diz frases imbecis com as palavras no diminutivo.

Hoje, decidi que não iria. Não fazia tanto tempo assim desde a última vez. E, se João – o meu, não o parvo – quisesse que eu fosse ao veterinário, que tivesse a hombridade de me buscar pessoalmente. Que afronta mandar um emissário e, ainda por cima, um tão incompetente!

Colocou a caixa sobre a cama e, vendo que eu não entraria de bom grado, saiu. Pensei que tivesse ido embora, mas ouvi que fuçava alguma coisa na cozinha. O velho truque do sachê. Esses humanos são tão previsíveis, sempre apelando para comida. Voltou como se tivesse um troféu em mãos. Abriu a embalagem e colocou na caixa. Depois, deu dois tapinhas para indicar onde havia posto. É uma pena que ele não tivesse noção do ridículo. O idiota realmente acha que não vi? Ignorei. Nenhum sachê vale a visita ao veterinário.

Sem saber bem como agir, ele foi empurrando a caixa em minha direção, o que me obrigou a levantar. Contrariado, me espreguicei para alongar a musculatura e pulei para a cômoda; depois, para o alto do armário, onde não me alcançaria.

Desanimado, o parvo saiu outra vez do quarto. Achei que tinha finalmente desistido, mas voltou com uma vassoura. Senti meu corpo tremer. Entrávamos em um terreno perigoso. Segurando o cabo com as duas mãos, ele se aproximou do armário. Tentei recuar, mas uma mala bloqueava meu caminho.

Fui obrigado a me render. Pulei de volta para a cômoda com a vassoura ainda apontada para mim. Quando passei para a cama, ele deu mais duas batidinhas na caixa. Não havia como escapar. Uma vassourada seria pior que que as apalpadelas do veterinário ou o termômetro. Ao menos, tinha um sachê.

Enquanto comia, notei que fechava as janelas e as cortinas. Ele pegou a caixa pela alça, apagou a luz e saiu do quarto. Repetiu o mesmo ritual na sala e, quando seguimos em direção à porta, pude ver de relance uma foto minha com o João, o que morava comigo. Miei de saudade. E também para protestar contra a minha retirada de casa. Tudo em vão. Nunca mais voltei, nem vi o meu João. Só o parvo.

Imagem: ‘Black cat oil painting’ (2018), de Viktoriia Raznatovska