Diário da quarentena: Loco Abreu

Ouvi passos no corredor e a chave girando na fechadura. Depois de nem sei quantos dias, João finalmente voltava para casa. Pulei da cama e, antes mesmo que ele girasse a maçaneta, já estava sobre o braço do sofá. Um cheiro diferente invadiu a sala. Devagarinho, um jovem colocou a cabeça pelo vão criado entre a porta e o batente. Quando me viu, arregalou os olhos em pânico. Aquele não era o João que morava comigo. Era o outro João, o parvo.

Desci do sofá e fui à porta. O cheiro de medo foi ficando mais forte. Quando finalmente entrou, vi que estava sozinho. Apesar da máscara que cobria metade do rosto, a expressão de pavor era visível. Pensei em fazer troça da situação, mas o cheiro já me causava náusea e preferi voltar para o quarto.

Não demorou para que viesse atrás. Continuei deitado, acompanhando seus passos com os olhos. Sua voz abafada me pediu calma, ainda que fosse ele quem estivesse nervoso. Embora o sol iluminasse o cômodo, acendeu a luz. E, praticamente se arrastando pela parede, caminhou até o armário. Abriu as portas uma a uma, sem tirar os olhos de mim. Quando encontrou o que procurava, deu um leve sorriso que me desconcertou.

O parvo tinha achado a maldita caixa. O próximo passo, claro, era me querer lá dentro. É sempre assim: eu entro, fecham a portinhola e me levam para o veterinário, um sujeito estranho de jaleco branco com instrumentos de tortura em mãos, que me apalpa o corpo todo, me espeta o cangote e me toma a temperatura enquanto diz frases imbecis com as palavras no diminutivo.

Hoje, decidi que não iria. Não fazia tanto tempo assim desde a última vez. E, se João – o meu, não o parvo – quisesse que eu fosse ao veterinário, que tivesse a hombridade de me buscar pessoalmente. Que afronta mandar um emissário e, ainda por cima, um tão incompetente!

Colocou a caixa sobre a cama e, vendo que eu não entraria de bom grado, saiu. Pensei que tivesse ido embora, mas ouvi que fuçava alguma coisa na cozinha. O velho truque do sachê. Esses humanos são tão previsíveis, sempre apelando para comida. Voltou como se tivesse um troféu em mãos. Abriu a embalagem e colocou na caixa. Depois, deu dois tapinhas para indicar onde havia posto. É uma pena que ele não tivesse noção do ridículo. O idiota realmente acha que não vi? Ignorei. Nenhum sachê vale a visita ao veterinário.

Sem saber bem como agir, ele foi empurrando a caixa em minha direção, o que me obrigou a levantar. Contrariado, me espreguicei para alongar a musculatura e pulei para a cômoda; depois, para o alto do armário, onde não me alcançaria.

Desanimado, o parvo saiu outra vez do quarto. Achei que tinha finalmente desistido, mas voltou com uma vassoura. Senti meu corpo tremer. Entrávamos em um terreno perigoso. Segurando o cabo com as duas mãos, ele se aproximou do armário. Tentei recuar, mas uma mala bloqueava meu caminho.

Fui obrigado a me render. Pulei de volta para a cômoda com a vassoura ainda apontada para mim. Quando passei para a cama, ele deu mais duas batidinhas na caixa. Não havia como escapar. Uma vassourada seria pior que que as apalpadelas do veterinário ou o termômetro. Ao menos, tinha um sachê.

Enquanto comia, notei que fechava as janelas e as cortinas. Ele pegou a caixa pela alça, apagou a luz e saiu do quarto. Repetiu o mesmo ritual na sala e, quando seguimos em direção à porta, pude ver de relance uma foto minha com o João, o que morava comigo. Miei de saudade. E também para protestar contra a minha retirada de casa. Tudo em vão. Nunca mais voltei, nem vi o meu João. Só o parvo.

Imagem: ‘Black cat oil painting’ (2018), de Viktoriia Raznatovska

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