Diário da quarentena: João

Da última vez, vô, você estava bem. Um pouco rouco e ofegante, é verdade, mas bem. Estaria melhor, não fosse o empate do Botafogo com o Bangu. A gente tinha acabado de chegar do Engenhão, onde perdera boa parte da voz gritando com os jogadores. Todo ano, você dizia que não iria torcer mais, que tudo o que aquele time sem vergonha poderia fazer era lutar para não ser rebaixado e que em nada honrava a camisa que um dia foi defendida por Garrincha, Nilton Santos, Jairzinho, Didi, Amarildo e tantos outros ídolos que você ia enumerando. Tempos em que a gente tinha orgulho de ser botafoguense, dizia com saudade.

Saudade. Um vazio tão imenso que, reza a lenda, só a língua portuguesa teve coragem de transformar em palavra. A única, agora, capaz de explicar a falta que você me faz.

Ah, seu João Carlos, que peça o destino pregou na gente, levando-o tão de repente e sem despedida. Espero que você tenha partido com orgulho de mim. Nem que seja só um pouquinho do imenso orgulho que eu sinto em ser seu neto, de ser João que nem você, de torcer pelo seu time (e o meu pai flamenguista sempre disse que nunca vai lhe perdoar por isso) e de ter aprendido a ouvir de Beth Carvalho não só porque ela tinha uma bela voz, mas porque também era botafoguense roxa.

Queria ter podido me despedir, vô Joca. Dizer que ia ficar tudo bem e que não se preocupasse com o Loco Abreu, que eu colocaria ração e cuidaria dele até que você voltasse para casa, mesmo achando que aquele gato me odeia e que iria me atacar. Mas a gente vive tempos tão estranhos que até afeto virou ameaça de morte, e eu não pude visitar você no hospital. Vai ver este mundo está mesmo perdido, como você sempre dizia, mas um dia a gente se encontra.

Obrigado, vô, por tudo o que me ensinou, pelas férias que eu passei na sua casa, pelas partidas de botão que me deixava ganhar (afinal, eu sempre escolhia o Botafogo e você não aceitava que o time perdesse nem mesmo no botão), pelas tardes no Engenhão. Vai ser tão difícil voltar lá sem você, sabia? Obrigado, vô, pela paciência e pelo carinho em todos esses anos. Eu não pude dizer quando você mais precisa ouvir, mas acho que o senhor sempre soube, vô Joca: eu amo você!

Foto: Botafogo/divulgação

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