‘Toc toc’

Pare para observar a si mesmo e a seus hábitos por um instante. Certamente, você tem alguma mania tão intrinsecamente sua que já a pratica sem nem mesmo se dar conta. Geralmente, são coisas banais, como dobrar as meias sempre da mesma maneira ou organizar os livros do maior para o menor e os DVDs (ainda há quem os colecione?) em ordem alfabética, quando não em ordem alfabética depois de agrupados por gênero, dependendo da quantidade de discos acumulados ao longo do tempo.

Mas o que acontece quando elas se transformam em uma prisão, a ponto de o sujeito não conseguir relaxar se os talheres não estiverem perfeitamente empilhados ou se as camisas penduradas no cabide não estiverem todas para o mesmo lado? Detalhes absolutamente banais para uns podem ser fonte de profunda angústia para outros. E o que seriam simples manias se tornam um transtorno obsessivo compulsivo.

Este é o tema de ‘Toc toc’, comédia espanhola lançada em 2017. Praticamente toda a ação se passa na sala de espera do consultório de um renomado psicólogo. Inúmeros pacientes vão chegando para suas primeiras consultas e descobrem não só que o especialista está atrasado por causa de uma viagem internacional, como também que um defeito no sistema de agendamentos fez com que todos eles fossem marcados para o mesmo horário.

Enquanto esperam, os personagens se veem obrigados a lidar com as peculiaridades de cada um. Blanca (Alexandra Jiménez), por exemplo, é paranoica com limpeza e lava as mãos a cada vez em que encosta em um objeto que ela desconfia não estar limpo. O taxista Emilio (Paco León) transforma todas as informações em cálculos, enquanto Ana María (Rossy de Palma) vasculha a bolsa a todo momento em busca das chaves de casa. Completam a lista de pacientes Otto (Adrián Lastra), neurótico por simetria e organização, Lili (Nuria Herrero), que repete sempre as frases, e Federico (Oscar Martínez), que não consegue evitar que palavrões e frases grosseiras – quase sempre com cunho sexual – saiam de sua boca.

Forçados a lidar com uma terapia de grupo involuntária, os pacientes vão aprendendo a suportar a maneira de ser dos outros e a tentar superar o transtorno que os acomete. Sem se pretender inovador ou trazer qualquer rigor científico, o roteiro de Vicente Villanueva, que também dirige, propositalmente exagera as situações e extrai boas doses de humor justamente ao transformar os personagens em caricaturas com as quais os espectadores podem se identificar, inclusive com mais de um deles. São 90 minutos de uma comédia despretensiosa, leve e eficiente em fazer rir. Mas fica a ressalva: ‘Toc toc’ é contraindicado a quem tem a mania de só ver grandes filmes.

Foto: Emilio Pereda/divulgação

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