‘Nada a esconder’

Não faz muito tempo, os celulares serviam apenas para fazer ligações e trocar mensagens rápidas. Hoje, cada ser humano carrega a própria vida no bolso (ou na bolsa). Tudo está no aparelho: dos números de telefone de familiares e amigos a senhas de trabalho, da agenda de compromissos às músicas preferidas, de informações sobre a própria saúde aos perfis nas redes sociais. Não é preciso muito esforço para perceber que os smartphones se tornaram uma extensão de nós mesmos.

Tê-lo sempre à mão, para muita gente, é mais do que uma simples vontade: é uma necessidade. Não por acaso, a psicologia vem desenvolvendo conceitos para ajudar a explicar o medo de ficar sem acesso ao celular (nomofobia) ou de sentir que se está perdendo algum momento importante (“fomo”, do inglês “fear of missing out”). Do mesmo modo como todas as informações pessoais são confiadas ao aparelho, também os segredos são guardados ali.

E o que aconteceria se estes segredos fossem relevados, mesmo a pessoas próximas? Esta é a premissa de ‘Nada a esconder’, produção francesa lançada em 2018. Remake do italiano ‘Perfetti sconosciuti’, de Paolo Genovese, o filme acompanha um jantar entre amigos: quatro homens que se conhecem desde os tempos de escola e as esposas de três deles. No meio da confraternização, um jogo é proposto: os celulares devem ser deixados sobre a mesa e toda vez que houver uma nova notificação, o conteúdo será compartilhado com todos, sejam mensagens lidas em voz alta, ligações postas no viva-voz ou fotos e vídeos exibidos para o grupo.

Apesar de algumas resistências quanto à perda de privacidade e da visível tensão nos rostos de muitos dos amigos, todos acabam aceitando participar. Conforme as notificações vão se sucedendo, segredos (quase sempre envolvendo lealdade e sexualidade) são revelados e os comensais se veem obrigados a dar explicações tanto a seus pares quanto aos demais convidados.

Adaptado e dirigido por Fred Cavayé, ‘Le jeu’ (título original) trata de questões contemporâneas com as quais todos nós nos identificamos. Algumas situações soam um tanto artificiais, mas servem bem às caricaturas estabelecidas para cada um dos personagens. Como é característico das comédias francesas, o filme é totalmente dependente dos diálogos, que aqui funcionam na grande maioria do tempo e são bem defendidos por um elenco coeso. Ao longo de 93 minutos, ‘Nada a esconder’ consegue entreter ao mesmo tempo em que faz uma boa crítica social. O final do filme, no entanto, se não chega a comprometer toda a experiência, guarda uma última surpresa absolutamente desnecessária.

Foto: Julien Panié/divulgação

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