‘O terrorista elegante e outras histórias’

Conheço pouco de literatura africana, reconheço, mas admiro as obras de dois dos maiores expoentes do continente em língua portuguesa da atualidade: o moçambicano Mia Couto e o angolano José Eduardo Agualusa. Amigos de longa data, os dois autores escreveram três peças a quatro mãos. Em um projeto exclusivo para a editora Planeta Brasil, nascido em conversas informais na cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, onde anualmente é realizada uma das maiores festas literárias do país, três peças foram adaptadas pelos próprios escritores para o formato de contos e reunidas em um livro de 176 páginas, ‘O terrorista elegante e outras histórias’, publicado sob o selo Tusquets. Como extra, há ainda uma entrevista de ambos a Anabela Mota Ribeiro, do jornal português Público.

O conto que abre e dá título ao livro traz a história de um angolano preso em Lisboa suspeito de ter ligação com grupos terroristas. Impecavelmente arrumado, com direito a terno feito sob medida por alfaiate e gravata, o homem confunde os agentes da justiça durante o interrogatório na prisão na capital portuguesa. As histórias que ele conta não condizem com o perfil que se espera de um terrorista e fazem com que os policiais reflitam sobre suas próprias vidas.

O segundo e melhor conto do livro, ‘Chovem amores na rua do matador’, mostra a volta de Baltazar Fortuna à cidade de Xigovia com um único e preciso objetivo: vingar-se das três mulheres que um dia amou. Além dos relatos do próprio Baltazar, também elas contam suas versões das histórias de amor vividas. É neste conto que está mais evidente a união entre a habilidade de Couto, que transforma frases aparentemente simples em verdadeiras joias, e o humor sutil e a ironia fina de Agualusa.

– O problema dos jovens hoje é não acreditarem nos sonhos. Se os sonhos não têm serventia, então por que dormimos oito horas por dia, trinta anos em noventa de vida? E por que sonhamos tanto?
– Eu não gosto de sonhar, porque os sonhos são ainda mais imprevisíveis do que a vida…
– É o contrário, os sonhos são mapas que nos ajudam a orientar na vida. Aqueles que não sabem ler os sonhos, esses, sim, estão perdidos…

Mia Couto e José Eduardo Agualusa, in 'O terrorista elegante e outras histórias'

‘A caixa preta’, terceiro e último conto do livro, traz ao menos uma cena memorável, a que marca o encontro entre a avó, a neta e o intruso. É a invasão da casa onde moram as duas mulheres, em uma cidade mergulhada no caos, que dá início à trama. Diante da presença do invasor desconhecido, as representantes de duas diferentes gerações de uma mesma família são obrigadas a enfrentar segredos até então bem guardados.

Como costuma ocorrer em qualquer reunião de contos, há sempre um que se destaca em relação aos demais. Curiosamente, neste caso, não é o que dá título à obra. O mais interessante de todos é ‘Chovem amores na rua do matador’, que, sozinho, já faria o livro valer a pena. Que o leitor não pense, porém, que os outros dois não são bons. Reunidos em ‘O terrorista elegante e outras histórias’, os três reforçam a qualidade literária de Mia Couto e Eduardo Agualusa e provam por que eles são dois dos maiores escritores africanos da atualidade.

Capa e desenho: Alex Cerveny

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