Diário da quarentena: Elisa

Faz pouco mais de seis meses que prometi ser fiel, amar e respeitar Guto, tendo quase duzentos convidados como testemunha, além do padre e, principalmente, de Deus. Foi uma cerimônia linda, do jeito que havíamos planejado por quase um ano. Mais eu do que ele, na verdade. Nada religioso, Guto decidiu que não decidiria nada, seria apenas um consultor, como ele mesmo disse, caso eu precisasse. Casar na igreja, de branco, véu e grinalda, era um sonho de infância, um desses clichês que nos põem na cabeça desde a mais tenra infância e contra o qual eu nunca lutei. Não há no mundo mulher mais linda do que a noiva.

Modéstia à parte, eu estava mesmo linda. Não, mais que isso, eu estava deslumbrante. Valeram a pena a dieta (e só Deus sabe o quanto foi difícil recusar chocolate, principalmente na TPM), a peregrinação até encontrar o vestido e o sapato perfeitos, as intermináveis horas na academia para ter o corpo que eu queria e os incontáveis testes de cabelo e maquiagem. Às sete da noite daquele cinco de outubro, de braço dado com meu pai, aos primeiros acordes da marcha nupcial, entrei confiante na igreja. Eu, que sempre fui tímida e fazia questão de passar despercebida na multidão, sorri para os convidados, para o padre, para Guto e para os fotógrafos como quem diz “Podem me olhar, eu sei que estou maravilhosa”. Foi uma cerimônia inesquecível.

Da casa de Deus, fomos para a casa de festas, receber e recompensar os convidados por aturar a cerimônia religiosa, as roupas desconfortavelmente elegantes e os gastos com os presentes. Tio Vlad, por exemplo, bebeu em uísque tudo o que desembolsou com a geladeira, apesar dos muitos cutucões da tia Sônia e dos olhares escandalizados de minha avó. Meu irmão caçula, menor de idade, vigiado de perto pela madrinha, espantou o tédio com quilos de salgadinhos que lhe engorduraram os dedos e, por tabela, a tela do celular. Duda, a dama de honra, e Arthur, o pajem, dominaram a pista de dança nas primeiras duas horas de festa. Depois disso, tudo o que lembro são flashes de alguns momentos, das coreografias de músicas da adolescência com as amigas de escola, de fotos para redes sociais com colegas do escritório, dos desafios etílicos da turma da faculdade, de carinhosos tapinhas no rosto acompanhados de “você agora já é uma mulher” das tias e avós e de anjos que me deram algo para comer entre as muitas fotos para o álbum de casamento.

Aliás, o álbum foi mais um desejo meu ao qual Guto resolveu atender, embora achasse que tudo caberia em um pen drive e sairia bem mais em conta, sobrando uma verba extra para a lua de mel. Mas fiz questão. E não me arrependo. Foi graças ao álbum que revivi tudo isso agora. Enquanto Guto ampliou a rotina de trabalho no hospital e eu cumpro a quarentena em casa, decidi finalmente arrumar meu lado do armário. Soterrada sob vestidos, saias e calças que peguei para experimentar um dia e acabei não usando, nem guardando até hoje, lá estava a caixa com o álbum.

Ainda bem que não era um pen drive. Só de ver a capa branca com nossos nomes completos escritos em um alto-relevo dourado já senti os olhos cheios d’água. Esses dias isolada do mundo, tendo contato físico apenas com meu marido, e em doses homeopáticas, têm me deixado emotiva. Folheei as páginas devagar, tentando sentir a presença e o calor de todas aquelas pessoas. Algumas fotos, acho, eu via pela primeira vez. Outras, nem me lembrava de ter tirado. Rever o álbum e reviver o casamento fez nascer em mim a vontade de outra festa, que já comecei a organizar mentalmente nos mínimos detalhes, da lista de convidados ao cardápio. E Guto que nem pense em economizar. Quero tudo de novo. E quero estar linda, ou melhor, deslumbrante outra vez. A faxina do armário que fique para depois.

Tela: Susan Moss Cooper

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