‘A casa das flores’

Até quando é possível manter a imagem de família perfeita, daquelas que costumam aparecer em comerciais de margarina de pouco sabor, mas com fotografia e iluminação caprichadas? Este é o esforço de Virginia de la Mora (Verónica Castro), matriarca de uma família rica que é dona de uma floricultura na Cidade do México. Produzida pela Netflix, a série mexicana ‘A casa das flores’ começa no momento em que tudo está prestes a ruir. No aniversário do patriarca, Ernesto (Arturo Ríos), a amante Roberta Sánchez (Claudette Maillé) traz à tona segredos capazes de mudar a história da família.

Criada por Manolo Caro, que também escreve e dirige alguns episódios, a série aposta na grande quantidade de reviravoltas para prender o espectador. Se, por um lado, a estratégia para despertar a curiosidade funciona, por outro, esbarra na dificuldade de criar sucessivos ganchos que sejam tão fortes quanto verossímeis. Em alguns casos (e não vou citá-los aqui para não dar spoiler), as viradas não funcionam e acabam revelando o próprio truque, que deveria passar despercebido para quem assiste.

A série incorpora e atualiza muitos elementos das novelas mexicanas, produto exportado com sucesso por muitas décadas para o mercado latino. E não há qualquer demérito nisto. Estão presentes as atuações mais exageradas (como o estranho modo de falar de Paulina, interpretada pela atriz Cecilia Suárez) e os dramalhões sentimentais, mas com as devidas arestas aparadas para o formato: cada temporada tem cerca de dez episódios de meia hora.

Com tons de comédia ácida e politicamente incorreta, a trama aborda também temas contemporâneos mais sérios e latentes, como sexualidade e identidade de gênero (e desperta críticas ao escalar o ator Paco León para interpretar uma personagem transexual). Com elenco bem azeitado, episódios curtos e sem se levar a sério demais, ‘A casa das flores’ é fácil de maratonar e serve como um bom passatempo.

Foto: Netflix/divulgação

Diário da quarentena: Guto

Abri os olhos assustado. Coração batendo acelerado. Respiração ofegante. Como se eu tivesse tido um pesadelo. A noite ia pelo meio. Uma luz débil vinha de fora. Na penumbra que tomava conta do quarto, conseguia ver apenas a forma do corpo de Elisa, que dormia um sono tranquilo embrulhada no lençol. O tique-taque distante do relógio quebrava o silêncio. Tudo parecia tranquilo, menos eu.

Ainda de olhos abertos, buscava respirar profundamente. Puxava o ar pelo nariz bem devagar e soltava aos poucos pela boca. Tentava não pensar em nada, me concentrando apenas na respiração. Em vão. Os pensamentos me atingiam como grossos pingos de chuva caindo ao chão. E quanto mais eu me esforçava para me livrar deles, maior era o temporal. Por mais que precisasse descansar para mais um dia de intenso trabalho, decidi não resistir e deixar chover até a última nuvem cinza no céu.

Como gotas de chuva, as lágrimas foram empapando a camisa do pijama e alagando o travesseiro. Fazia tempo que não chorava assim, de embotar os olhos. E eu, que nunca fui religioso, rezava para que o choro não acordasse Elisa. Não queria acrescentar mais nenhuma dose de preocupação às muitas que ela já tinha: os pais idosos e cardiopatas morando em outra cidade, o irmão empresário sem saber como vai sobreviver ao fim da quarentena e o marido médico trabalhando quase sem parar. Já me pesava suficientemente na consciência que minha saúde física pudesse lhe tirar o sono para que se somasse à lista minha saúde mental.

Para ser honesto, nem eu mesmo sei a quantas anda minha sanidade em tempos de rotina tão insana e intensa, com hora para chegar ao hospital, mas não para sair, com a indignação constante pela falta de equipamentos básicos, com a falta de tempo para dar o mínimo de atenção os pacientes, com o temor não só de contrair a doença, mas de espalhá-la – sem querer e sem saber – para outras pessoas, principalmente para quem a gente ama.

Como médico, meu maior medo se materializou. Há semanas, temos perdido pacientes vítimas do novo coronavírus, embora tenhamos feito tudo o que estava ao nosso alcance para salvá-los, ainda que em condições bem adversas. Ontem, tivemos que escolher quem salvar. Pouco importam os critérios técnicos. De nada adiantam os protocolos. Por mais racional que tenha sido a escolha, no final, fomos nós que decidimos qual paciente continuaria lutando pela própria vida, abandonando o outro à própria sorte. Até o último suspiro, se nos serve de consolo, lutamos por uma vaga, por um respirador, pela recuperação do seu João.

Sei que fizemos o que pudemos, o que estava ao nosso alcance. Desde ontem, porém, não consigo parar de pensar naquele senhor que tivemos de abandonar: quem ele era, do que gostava, se tinha filhos e netos, o que viveu, que planos fazia para o futuro, que sonhos realizou e quais ainda estavam na fila. Desde ontem, repito em vão para mim mesmo que seguimos o protocolo. Não há critério técnico capaz de aplacar a culpa que sinto agora. Há quinze anos, escolhi ser médico para salvar vidas. E jurei que faria tudo o que estivesse ao meu alcance. Ontem, não deu. Peço perdão ao seu João por tê-lo deixado partir. E à família do seu João, que hoje chora sua morte. E que um dia também eu possa me perdoar.

Foto: ‘The blue way IV’, de Rumen Spasov

‘Toc toc’

Pare para observar a si mesmo e a seus hábitos por um instante. Certamente, você tem alguma mania tão intrinsecamente sua que já a pratica sem nem mesmo se dar conta. Geralmente, são coisas banais, como dobrar as meias sempre da mesma maneira ou organizar os livros do maior para o menor e os DVDs (ainda há quem os colecione?) em ordem alfabética, quando não em ordem alfabética depois de agrupados por gênero, dependendo da quantidade de discos acumulados ao longo do tempo.

Mas o que acontece quando elas se transformam em uma prisão, a ponto de o sujeito não conseguir relaxar se os talheres não estiverem perfeitamente empilhados ou se as camisas penduradas no cabide não estiverem todas para o mesmo lado? Detalhes absolutamente banais para uns podem ser fonte de profunda angústia para outros. E o que seriam simples manias se tornam um transtorno obsessivo compulsivo.

Este é o tema de ‘Toc toc’, comédia espanhola lançada em 2017. Praticamente toda a ação se passa na sala de espera do consultório de um renomado psicólogo. Inúmeros pacientes vão chegando para suas primeiras consultas e descobrem não só que o especialista está atrasado por causa de uma viagem internacional, como também que um defeito no sistema de agendamentos fez com que todos eles fossem marcados para o mesmo horário.

Enquanto esperam, os personagens se veem obrigados a lidar com as peculiaridades de cada um. Blanca (Alexandra Jiménez), por exemplo, é paranoica com limpeza e lava as mãos a cada vez em que encosta em um objeto que ela desconfia não estar limpo. O taxista Emilio (Paco León) transforma todas as informações em cálculos, enquanto Ana María (Rossy de Palma) vasculha a bolsa a todo momento em busca das chaves de casa. Completam a lista de pacientes Otto (Adrián Lastra), neurótico por simetria e organização, Lili (Nuria Herrero), que repete sempre as frases, e Federico (Oscar Martínez), que não consegue evitar que palavrões e frases grosseiras – quase sempre com cunho sexual – saiam de sua boca.

Forçados a lidar com uma terapia de grupo involuntária, os pacientes vão aprendendo a suportar a maneira de ser dos outros e a tentar superar o transtorno que os acomete. Sem se pretender inovador ou trazer qualquer rigor científico, o roteiro de Vicente Villanueva, que também dirige, propositalmente exagera as situações e extrai boas doses de humor justamente ao transformar os personagens em caricaturas com as quais os espectadores podem se identificar, inclusive com mais de um deles. São 90 minutos de uma comédia despretensiosa, leve e eficiente em fazer rir. Mas fica a ressalva: ‘Toc toc’ é contraindicado a quem tem a mania de só ver grandes filmes.

Foto: Emilio Pereda/divulgação

‘Nada a esconder’

Não faz muito tempo, os celulares serviam apenas para fazer ligações e trocar mensagens rápidas. Hoje, cada ser humano carrega a própria vida no bolso (ou na bolsa). Tudo está no aparelho: dos números de telefone de familiares e amigos a senhas de trabalho, da agenda de compromissos às músicas preferidas, de informações sobre a própria saúde aos perfis nas redes sociais. Não é preciso muito esforço para perceber que os smartphones se tornaram uma extensão de nós mesmos.

Tê-lo sempre à mão, para muita gente, é mais do que uma simples vontade: é uma necessidade. Não por acaso, a psicologia vem desenvolvendo conceitos para ajudar a explicar o medo de ficar sem acesso ao celular (nomofobia) ou de sentir que se está perdendo algum momento importante (“fomo”, do inglês “fear of missing out”). Do mesmo modo como todas as informações pessoais são confiadas ao aparelho, também os segredos são guardados ali.

E o que aconteceria se estes segredos fossem relevados, mesmo a pessoas próximas? Esta é a premissa de ‘Nada a esconder’, produção francesa lançada em 2018. Remake do italiano ‘Perfetti sconosciuti’, de Paolo Genovese, o filme acompanha um jantar entre amigos: quatro homens que se conhecem desde os tempos de escola e as esposas de três deles. No meio da confraternização, um jogo é proposto: os celulares devem ser deixados sobre a mesa e toda vez que houver uma nova notificação, o conteúdo será compartilhado com todos, sejam mensagens lidas em voz alta, ligações postas no viva-voz ou fotos e vídeos exibidos para o grupo.

Apesar de algumas resistências quanto à perda de privacidade e da visível tensão nos rostos de muitos dos amigos, todos acabam aceitando participar. Conforme as notificações vão se sucedendo, segredos (quase sempre envolvendo lealdade e sexualidade) são revelados e os comensais se veem obrigados a dar explicações tanto a seus pares quanto aos demais convidados.

Adaptado e dirigido por Fred Cavayé, ‘Le jeu’ (título original) trata de questões contemporâneas com as quais todos nós nos identificamos. Algumas situações soam um tanto artificiais, mas servem bem às caricaturas estabelecidas para cada um dos personagens. Como é característico das comédias francesas, o filme é totalmente dependente dos diálogos, que aqui funcionam na grande maioria do tempo e são bem defendidos por um elenco coeso. Ao longo de 93 minutos, ‘Nada a esconder’ consegue entreter ao mesmo tempo em que faz uma boa crítica social. O final do filme, no entanto, se não chega a comprometer toda a experiência, guarda uma última surpresa absolutamente desnecessária.

Foto: Julien Panié/divulgação

‘O poço’

Um dos filmes mais comentados nesta quarentena é ‘O poço’, produção espanhola que marca a estreia de Galder Gaztelu-Urritia na direção de longas-metragens e que recentemente chegou ao catálogo da Netflix. No momento em que o mundo todo vive o distanciamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus, o sucesso – em parte – se explica pelo cenário e pelo contexto: uma prisão em que os personagens, além da liberdade, estão submetidos a outras formas de privação.

Um dos méritos do roteiro de David Desola e Pedro Rivero é fazer com que o espectador entenda como funciona o mecanismo junto com o protagonista Goreng (Ivan Massagué, em uma ótima atuação). Por conta própria, ele decide passar um tempo no local com o objetivo de parar de fumar. Já na chegada, conhece Trimagasi (Zorion Eguileor, o grande destaque do elenco), que está há meses preso e que, aos poucos, vai lhe ensinando a estranha dinâmica do lugar.

O funcionamento é tão simples quanto assustador: há dois prisioneiros por cela, que ocupa todo o andar e cujo centro é formado por um grande buraco. É por ali que desce a plataforma que literalmente alimenta o sistema. No topo do prédio, um banquete é preparado e disposto sobre a plataforma. Depois, ela desce nível por nível, parando por apenas dois minutos em cada um deles. O tempo para comer é apenas este, já que nenhuma comida pode ser estocada para um momento posterior, sob risco de punição. E nada é reposto, ou seja, presos dos andares mais altos podem se empanturrar, enquanto os que estão mais para baixo chegam a passar fome.

O que define onde cada pessoa vai ficar? A sorte (ou o azar). Mensalmente, os confinados trocam de lugar. E tudo é feito de forma aleatória. Não há qualquer garantia de que quem está nos andares mais baixos vai passar para um patamar mais alto ou vice-versa. Ao mesmo tempo em que gera a esperança de comida mais farta em caso de ascensão, a plataforma provoca também o medo de uma escassez ainda maior. O consolo para tamanha angústia – e que pode ajudar a manter a sanidade mental – pode estar em um único objeto: cada preso tem direito a escolher apenas um item para levar ao confinamento. No caso de Goreng, a opção foi por um livro.

São apenas 94 minutos, alguns que requerem estômago forte para acompanhar e um punhado de cenas escatológicas desnecessárias, mas ‘El hoyo’ (no título original) permanece na memória por bem mais tempo pelas muitas reflexões que desperta. Muito bem construída, a narrativa que faz com que o espectador e o protagonista descubram e reflitam juntos sobre a dinâmica social daquela estrutura dura quase até o fim, quando o leque se abre. Para muitos, o final vai parecer dúbio. No entanto, ao deixá-lo em aberto, ‘O poço’ alimenta uma infinidade de possibilidades interpretativas, a depender do nível que cada um de nós ocupa e da fome por respostas.

Foto: Netflix/divulgação