Uma conversa no ônibus

Voltando a usar o transporte público depois de quase uma década me deslocando de carro, percebi que as pessoas escutam mais, mas ouvem cada vez menos.

Embarquei no ônibus de volta para casa depois de um dia de trabalho e me sentei próximo à porta, no único assento que ainda estava livre, ao lado de uma senhora que olhava a paisagem. O pedido de licença para ocupar o lugar foi a deixa que ela esperava (ou a desculpa, não sei) para começar a falar. Contou por que pegava aquela linha, para onde ia e em que lugar morava. Falou da filha, do genro e também de um vereador a quem pediu ajuda para o transporte e que não a ajudou. Pediu até opinião sobre o que deveria fazer em relação a determinados acontecimentos da vida.

No início, dei pouca importância, acreditando que logo pararia. Depois, mesmo sem saber de quem falava ou do contexto das histórias contadas, ouvi tudo com a atenção que ela procurava (ou precisava). Respondi, sempre que solicitado, às perguntas feitas, embora nem sempre soubesse o que dizer. E o diálogo seguiu ditado pelo ritmo da fala dela, com os temas que ela escolheu abordar. Por vezes, desabafou sobre as dificuldades pelas quais passava.

Deveríamos ser os únicos a conversar em todo o ônibus. E isso me fez lembrar dos tempos de faculdade, há quase dez anos. Naquela época, embora há houvesse tocadores de música portáteis, os hoje já obsoletos mp3, seu uso ainda não estava tão popularizado. Pode parecer difícil de acreditar, mas era raro ver pessoas usando fones de ouvido, alheias à realidade circundante. Mesmo às seis da manhã, era possível ouvir as vozes de estudantes sonolentos e de quem ia logo cedo ao trabalho. Quem não dormia (uma impossibilidade para muita gente que ia em pé) falava sobre o tempo, o trânsito, o capítulo da novela, o jogo de futebol, a política… Tudo era pauta. Com a intimidade conferida pelas muitas horas compartilhadas em um ônibus lotado, também se conversava sobre a própria vida.

Durante os quatro anos da graduação foi assim. Para cumprir o trajeto de cerca de 25 quilômetros, que durava em média uma hora, pegava sempre a mesma linha e, na maioria das vezes, com o mesmo motorista. Conhecia os condutores pelo nome e muitos dos passageiros pelas histórias que contavam. Todo um universo circunscrito a um trajeto e a um horário específicos, que virou lembrança após o fim da faculdade e a chegada do carro, coincidentemente no mesmo período.

Quase uma década depois, os ônibus voltaram a fazer parte da minha rotina, agora em outro trajeto, menor e mais rápido. Mas não foi só isso que mudou após tanto tempo. Os sons também estão muito diferentes. Os fones de ouvido, que há dez anos eram bem poucos, estão por toda parte, fechando os passageiros em seus mundinhos particulares. Conversas são raras e, quando ocorrem, surpreendem. Até nos chegam uma ou outra frase dirigida ao motorista e alguns decibéis da música que escapam aos fones, mas raramente as vozes humanas. Paradoxalmente, estamos escutando mais, mas ouvimos cada vez menos.

Foto: ‘Passenger (Green Coat)’, de Oliver Bevan

Autor: Pedro Rabello

Jornalista e desinfluenciador digital.

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