‘Todos os santos’

Melancólico e nostálgico, mas igualmente poético, livro de Adriana Lisboa convida o leitor a uma importante reflexão sobre perdas e como superar um luto.

Mauro poderia ter sido um excelente nadador olímpico. Ou um campeão em outro esporte. Ou um profissional de sucesso em qualquer carreira que escolhesse. Mauro poderia ter sido muitas coisas, não fosse por aquele domingo aparentemente comum em clube do Rio de Janeiro. Na festa de aniversário de uma das meninas mais ricas da escola, Vanessa perdeu o irmão caçula em um acidente na piscina.

A mesma tragédia que marcou a infância da menina a ligou de maneira definitiva a André, colega de escola de Mauro, e uniu as famílias de ambos. Tempos mais tarde, já adulta e pesquisadora de aves migratórias na distante Nova Zelândia, Vanessa revisita o passado e tenta entender o que aconteceu desde aquele trágico domingo de novembro há cerca de quatro décadas e ressignificar a relação com André. Tocar essa ferida ainda não plenamente cicatrizada não é fácil, mas– movida por uma revelação inesperada – ela sente que precisa fazê-lo.

“Não penso muito, hoje em dia, repeti. Não acha estranho? Quando uma coisa dessas acontece, tudo é de um tamanho que parece que vai esmagar você para sempre, uma chave de braço que passou a fazer parte do seu corpo, e a cada minuto você precisa se lembrar e se convencer de que o que aconteceu aconteceu mesmo. Então um dia, e você não sabe como foi que chegou até ali, já não pensa mais tanto no assunto. E quando pensa o assunto passou a fazer parte da sua vida, da sua história. É um problema que você não vai conseguir resolver nunca. Uma contradição que acata, que aceita. É assim que a gente cumpre o luto, talvez.
[…]
Não sei se é assim que a gente cumpre o luto, pensando bem, eu disse. Será que a gente só faz mesmo é tentar esquecer a pessoa que morreu, para continuar vivendo? Tirar da pessoa a importância que ela teve para nós.
Não, você disse. Tenho certeza de que não é isso.
Não tenho essa certeza toda.

Adriana Lisboa (in 'Todos os santos')

O relato, tão nostálgico quanto dolorido, entre o Rio de Janeiro de outrora e a Nova Zelândia de hoje, é o cerne de ‘Todos os santos’, romance da escritora carioca Adriana Lisboa publicado em 2019 pela Alfaguara. Apesar de curto (são apenas 148 páginas), o livro requer tempo. Simples e direta na forma, a obra convida a reflexões sobre perda, culpa, arrependimento e perdão. Impossível não parar entre um parágrafo e outro para se colocar no lugar de Vanessa ou apreciar a escrita concisa e profunda da autora.

O luto sempre pode ser pacificado, mas nunca superado, o que faz de ‘Todos os santos’ um romance triste e melancólico. No entanto, o lirismo com que Adriana Lisboa conduz a narrativa, aparentemente à deriva e fragmentada, cria um porto seguro para o leitor. A travessia por reminiscências tão profundamente pessoais de Vanessa conquista tanto pela tessitura poética quanto pela universalidade do tema; ninguém é imune a perdas. A diferença está em como se lida com elas.

Foto: Getty Images/iStockphoto
Capa do livro: Claudia Espínola de Carvalho

Autor: Pedro Rabello

Jornalista e desinfluenciador digital.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s