‘1917’

Brilhantemente dirigido em grandes planos-sequência por Sam Mendes, filme prova que temática de guerra está longe de se esgotar no cinema.

Fui ao cinema com enorme expectativa assistir a ‘1917’. Em primeiro lugar, porque dramas de guerra costumam me chamar mais a atenção do que os que se concentram na ação do conflito. Depois, porque a obra foi dirigida por Sam Mendes, que tem no currículo filmes aclamados como ‘Beleza americana’ – pelo qual ganhou o Oscar de melhor diretor – e o irretocável ‘Foi apenas um sonho’, que reuniu Leonardo DiCaprio e Kate Winslet em suas melhores fases e traz ainda um assombroso Michael Shannon. E vale creditar também ao cineasta a oxigenada dada à saga ‘007’; são dele ‘Operação Skyfall’ e ‘007 contra Spectre’.

Chama a atenção ainda em ‘1917’ a arriscada opção por construir o longa-metragem como uma sucessão de planos-sequência, dando a impressão de que a maior parte da ação transcorre em tempo real. Esta decisão é coerente com o roteiro, escrito pelo próprio Sam Mendes, em parceria com Krysty Wilson-Cairns. Dois soldados britânicos recebem uma missão praticamente impossível durante um dos momentos cruciais da Primeira Guerra Mundial: cruzar um território dominado pelos alemães para entregar uma mensagem que pode evitar a morte de cerca de 1,6 mil homens da Grã-Bretanha em uma emboscada. Como o ataque é iminente, Blake (Dean-Charles Chapman, simpático) e Schofield (George MacKay, minimalista) precisam correr contra o tempo. O caráter de urgência, somado aos hercúleos esforços dispensados na empreitada, faz o espectador prender a respiração em diversos momentos.

Enquanto os soldados buscam cumprir a missão que lhes foi confiada (e que pode definir o futuro da guerra), seus dramas particulares vão sendo pincelados ao longo do percurso. São poucos os diálogos, mas suficientes para revelar as motivações dos personagens e entender de onde vieram. Em meio ao cenário devastado e desolador, Chapman e MacKay, que têm aqui a melhor oportunidade de suas carreiras no cinema, transmitem em mínimos gestos tanto o desgaste físico quanto esgotamento psicológico a que seus protagonistas estão submetidos.

O domínio de Sam Mendes da técnica do plano-sequência é evidente. O diretor comanda coreografias engenhosas. Por vezes, a câmera está colada aos personagens, comportando-se como se fosse um deles. Por outras, se afasta para mostrar múltiplas ações simultâneas em cenários grandiosos e arrasados, com centenas de figurantes. De forma bastante orgânica, estes dois modos de operação se alternam diversas vezes dentro de uma mesma sequência; e sempre magistralmente fotografados por Roger Deakins, parceiro habitual tanto de Sam Mendes quanto dos irmãos Coen.

Toda expectativa é correspondida. A estética apurada (fotografia e direção de arte impecáveis), a trilha sonora de Thomas Newman que pontua momentos específicos, a mixagem de som que insere o espectador no cenário da ação, as atuações precisas de todo o elenco e o roteiro quase irretocável (apenas uma sequência envolvendo uma jovem francesa poderia ser descartada, ainda que funcione como um respiro) são brilhantemente orquestrados pelo diretor. Em ‘1917’, cai por terra a máxima de que, em uma guerra, não há vencedores. Há sim. E este alguém é Sam Mendes.

Foto: François Duhamel/Divulgação

Autor: Pedro Rabello

Jornalista e desinfluenciador digital.

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