‘Dois Papas’

Retratando duas visões de mundo e de fé diametralmente opostas, filme faz defesa necessária da importância do diálogo em tempos de tamanha intolerância.

Em pleno carnaval de 2013, uma notícia surpreendeu o mundo: prestes a completar oito anos de pontificado, o Papa Bento XVI anunciou que deixaria a liderança da Igreja Católica. Foi a primeira vez em que isso aconteceu em quase seis séculos. O motivo alegado foi a saúde frágil, que o impedia de cumprir os muitos compromissos religiosos, mas escândalos que ficaram conhecidos como ‘Vatileaks’ podem ter contribuído (ou mesmo provocado) a renúncia.

A tensão que pairou sobre o Vaticano à época é um dos temas abordados em ‘Dois Papas’, produção da Netflix dirigida pelo brasileiro Fernando Meirelles (‘Cidade de Deus’). O filme imagina uma conversa entre o ainda Papa Bento XVI e o então cardeal e arcebispo de Buenos Aires e futuro Papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio, no início de 2013. O argentino teria ido à Santa Sé para apresentar sua renúncia do posto de cardeal. Ele queria retomar as atividades paroquiais.

O roteiro de Anthony McCarten (‘A hora mais escura’ e ‘A teoria de tudo’) é engenhoso ao trabalhar com as especulações sobre os bastidores que levaram à ascensão do Papa Francisco. O texto tem uma fluidez raramente vista no cinema e se concentra no embate entre dois homens com visões bastante diferentes sobre a vida e a fé, mas que comungam da crença de que a Igreja precisa expiar a crise profunda que enfrenta se quiser se manter relevante. Ainda que divirjam quanto aos métodos, os dois religiosos se mostram sempre disponíveis ao diálogo e capazes de admirar um ao outro.

Se, por um lado, demonstram grandeza, por outro, os protagonistas também revelam suas fragilidades. E nos lembram de que são humanos. ‘Dois Papas’ assinala – ainda que rapidamente – o conservadorismo de Bento XVI, que condenava com veemência o divórcio, a homossexualidade e o aborto, ao mesmo tempo em que era condescendente com os escândalos de abuso sexual e pedofilia na Igreja Católica, e o passado controverso de Bergoglio em relação à ditadura que deixou milhares de mortos e desaparecidos na Argentina entre os anos de 1976 e 1983.

No entanto, de nada adiantaria um texto inspirado – que consegue passear com leveza e elegância entre o drama e o humor – sem o talento de Anthony Hopkins (‘Hannibal’) e Jonathan Pryce (‘A esposa’). Ainda que sejam britânicos interpretando um alemão e um argentino, uma escolha bastante criticada, os veteranos dão mais uma prova de seus talentos. Enquanto Hopkins traduz o ar mais circunspecto e a fragilidade física de Bento XVI até pelo modo como respira, Pryce confere mais vivacidade a um descontraído Bergoglio.

Amparado pela belíssima fotografia do parceiro habitual César Charlone (‘Cidade de Deus’ e ‘Ensaio sobre a cegueira’) e por uma primorosa direção de arte, sobretudo nas reconstituições de época, Fernando Meirelles faz contrastar a imponência dos cenários do Vaticano com os mínimos e frágeis gestos e olhares dos protagonistas. Independentemente de qual seja a fé do espectador, ‘Dois Papas’ é uma bênção bem-vinda e necessária em tempos de tamanha intolerância.

Foto: Peter Mountain/Divulgação

Autor: Pedro Rabello

Jornalista e desinfluenciador digital.

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