'Minha mãe é uma peça 3'

Filme confirma a habilidade de Paulo Gustavo em fazer rir e promete levar multidão ao cinema, mas trama episódica demais bloqueia a emoção.

Poucos atores na atualidade são garantia de sucesso no cinema. Um dos principais nomes a figurar nesta seleta lista é Paulo Gustavo, que chega às telas novamente à frente da personagem que o consagrou: dona Hermínia. Agora, ela terá de lidar com a síndrome do ninho vazio, já que Juliano (Rodrigo Pandolfo) e Marcelina (Mariana Xavier) deixaram a casa da mãe para formar suas próprias famílias. Além de sogra, a moradora mais famosa de Niterói descobre ainda que vai ser avó novamente.

O roteiro de ‘Minha mãe é uma peça 3’ – assinado por Paulo Gustavo, Fil Braz e Susana Garcia, que também dirige a produção – segue o modelo dos dois episódios anteriores: sem um arco dramático bem definido (com princípio, meio e fim), as cenas funcionam como esquetes de programa de humor. Um exemplo é a sequência em Los Angeles, que nada agrega à trama. Por outro lado, ficou de fora qualquer relação com as duas primeiras empreitadas; não se explica o que aconteceu com o programa que dona Hermínia passou a apresentar no segundo filme.

As histórias giram em torno de temas domésticos com os quais todos nós estamos familiarizados em alguma medida e, por isso, o espectador é rapidamente capturado e se identifica com muitas situações retratadas, como as brigas entre as irmãs e a ceia de Natal. Mas o enredo diluído em muitas possibilidades não desenvolvidas (fala-se sobre casamento gay, gravidez acidental e envelhecimento sem grande profundidade em nenhum dos assuntos) privilegia o riso e evita a emoção.

Ainda que tenha bons atores no elenco, como Herson Capri e Alexandra Richter, todos os holofotes se voltam para Paulo Gustavo. Presente em todas as cenas e com domínio absoluto da carismática, verborrágica e desbocada personagem principal, ele dispara com eficiência uma metralhadora de piadas e faz ‘Minha mãe é uma peça 3’ entregar ao público justamente o que promete: boas risadas.

Foto: Marco Antônio Teixeira/Divulgação

Metas de Ano Novo

Estabeleci um novo projeto para 2020: voltar a ter um blog e escrever com regularidade. Na dúvida sobre cumprir ou não, decidi começar antes.

Como começar um texto sobre o fim do ano sem apelar para um dos clichês mais repetidos de todos os tempos? Tento resistir à ideia, mas a realidade se impõe e me convence de que, sim, o tempo passa voando. Ou correndo. E, ainda que nadasse, nadaria mais depressa do que qualquer recordista olímpico. Tanto faz o modo, a conclusão é: o velho chavão é tão recorrente justamente por ser tão verdadeiro.

De repente, dezembro chega, com música da Simone e luzinhas piscantes, exigindo fôlego de ultramaratonista para dar conta da correria que é comprar todos os presentes (com a dificuldade extra de não repetir o que se deu no ano anterior) e fazer caber uma grande quantidade de confraternizações, oriundas dos mais diversos grupos de amigos, em um calendário tão apertado. Quanto mais sociável o sujeito, mais difícil a missão se torna. Mas o último mês do ano promete recompensar tudo; senão com a segunda parcela do décimo terceiro depositada na conta ou alguns dias de merecido descanso (ou seria mais correria?), ao menos com o inebriante cheiro das rabanadas. Fritas, por favor. Nada de tentar compensar nas duas últimas semanas a dieta que não foi feita nos outros 350 dias do ano. Ela que fique para depois.

Com suculentas rabanadas e generosas fatias de panetone (ou chocotone, para os hereges) para ajudar a clarear as ideias, dezembro nos convida a relembrar o que passou, ainda que esquecer e superar pareçam verbos mais apropriados. Toda reflexão é importante, nem que seja para não repetir o que foi traumático ou deixou a desejar. E também pode ser reconfortante ver o ano pelo retrovisor, se afastando de vez.

Reflexões mais profundas e filosóficas à parte, fazem muito sucesso, por exemplo, as retrospectivas das redes sociais, que nos mostram o que mais curtimos, compartilhamos e comentamos no ano que vai chegando ao fim. São vídeos curtos, inversamente proporcionais ao tempo perdido na internet e que só interessam ao próprio usuário, mas que vamos compartilhar assim mesmo, porque todo capricho na escolha dos filtros merece ser recompensado com uma curtida. É o mínimo que se espera dos amigos.

Bem mais sérias são as retrospectivas jornalísticas, que nos lembram que aquele fato que achávamos ter ocorrido há uma década, na verdade, aconteceu em janeiro. Descobrimos também – ou redescobrimos – que muitos artistas que julgávamos apenas sumidos, perdidos na época em que fizeram sucesso, morreram. Percebemos também que as notícias mais importantes do ano são quase todas tristes, mas há sempre uma redenção. Para frear o desejo de cortar os pulsos e pôr fim ao vale de lágrimas, os programas que passam o ano em retrospecto nos brindam com os campeões do esporte. Ainda que o time tenha sido rebaixado ou perdido um título importante, haverá sempre um conterrâneo a nos redimir e a devolver o orgulho da pátria, nem que seja o primeiro brasileiro a vencer o campeonato mundial de bocha.

Se o ano que se despede não foi tão bom quanto gostaríamos (ou mereceríamos?), fica ao menos a certeza de que ele termina em breve. E podemos aproveitar não só para respirar mais aliviados, como também para já especular, fantasiar e projetar o seguinte. Para muita gente, estabelecer metas para o ano novo dá alento e renova as esperanças.

Podem ser desejos mais impossíveis, como ganhar na Mega Sena da Virada sem ter feito nenhuma aposta. Podem ser vontades mais improváveis, como ter o corpo perfeito sem fazer qualquer esforço. Podem ser delírios mais abstratos, como visitar as muralhas da China com um guia fantasiado de panda e depois pegar um foguete para comprovar se elas podem mesmo ser vistas do espaço. Podem ser clichês mais clássicos, como escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho, não necessariamente nesta ordem. Ou podem ser objetivos mais específicos, como conquistar a Ásia, a Oceania e um terceiro continente à sua escolha.

Ser mais realista facilita o cumprimento de uma maior quantidade de metas. É o que pregam os manuais de autoajuda. E temos que dar o braço a torcer: deve mesmo ser bem mais fácil cuidar da alimentação (mas as rabanadas seguem liberadas em dezembro), beber mais água e usar filtro solar todos os dias do que encontrar um guia de turismo disposto a percorrer longas distâncias vestido de urso ou chegar ao fim de uma partida de War. Mas esses mesmos manuais nos aconselham a perseguir obstinadamente nossos sonhos. Por isso, na dúvida, vá ao médico e – enquanto espera a consulta – faça um orçamento sem compromisso de quanto custaria uma viagem espacial. Nunca se sabe.

Este longo preâmbulo foi só para dizer que estabeleci ao menos uma meta para o ano novo (e resolvi começar antes que ele chegasse): voltar a ter um blog. Quem sabe no fim do ano que vem não rola uma retrospectiva.

Foto: Réveillon do Morro/Divulgação